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Brazil sil zil sil zil

Dizem que distopia é o oposto de utopia, sendo que utopia é uma coisa muito boa e que de tão boa não pode ser verdade. Sonho de padaria que não engorda, zagueiro que não comete faltas, exposição em São Paulo sem filas. Ou propaganda de carro no Brasil, em que tudo é bonito, civilizado e os automóveis dão bom dia de tão educados.

Por aí dá pra ver que distopia é uma coisa muito ruim. Tão ruim que tenho visto gente discutindo se o Brasil não seria uma distopia. Outro dia vi uma dessas discussões em um programa de tv e domingo passado(21/04),  distopia foi o título da coluna da Fernanda Torres na Folha.

Ainda não vi alguém lembrar do Brazil, filme de Terry Gilliam que a wikipedia classifica como ficção científica distópica, gênero ao qual pertenciriam Blade Runner, Laranja Mecânica e Alphaville.

O filme passou por aqui em 1985 anunciado como “Brazil – o filme”. Mantiveram a grafia gringa mas era importante fazer essa distinção, na verdade uma ressalva. Algum desavisado poderia entrar no cinema achando que iria assistir a alguma coisa relacionada ao Brasil, o país. Não vamos nos perder na ortografia e nem na ficção. Da realidade já desisti.

Terry Gilliam diz que a ideia do filme nasceu quando ele estava em Port Talbot, uma cidade conhecida por indústrias metalúrgicas que fica na costa do País de Gales. Certo dia, na praia, toda preta por causa do carvão das fábricas, ele viu um sujeito solitário ao pôr do sol ouvindo “Aquarela do Brasil”. A música de Ary Barroso lá fora é conhecida por ‘Brazil’, daí o nome do filme. Aquela música naquela paisagem. Mas o Haiti é aqui e não sei se Terry Gilliam fez pontaria ou não, mas em seu Brazil ele acertou em muita coisa no Brasil. Selecionei algumas imagens bastante sintéticas.

A verdade.

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A cena se passa no ‘Ministério das Informações’ e Terry Gilliam queria mostrar na mesma imagem o Estado, a Igreja e o Exército. A frase ao pé da estátua é perturbadora.

 

A briga na repartição.

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Você vai à repartição, o funcionário diz que não é com ele e lhe manda para outro lugar. Você diz ‘mas foi de lá que vim’. Essa é uma briga de uns 500 anos. Falta o carimbo. Você perde.

 

A feiura.
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Aqui é preciso falar das fontes de inspiração de Terry Gilliam para a realização do filme. Ele menciona o alemão George Grosz, pintor da primeira metade do século passado e cujos temas eram a corrupção, violência social e urbana e Ernst Fuchs, um dos fundadores da escola vienense de realismo fantástico, assunto de que não entendo nada, mas me parece bastante apropriada a associação realismo fantástico vienense-Brazil-Brasil.

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A tentação de Victor – Ernst Fuchs 1949

 

 

George Grosz, Metrópolis, 1916
George Grosz, Metrópolis, 1916

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Outras fontes foram livros e revistas do próprio Gilliam. Aquelas estranhas tubulações que aparecem na foto acima e estão por todo o filme realmente existiram no início do século passado, a idéa veio de um desses livros.

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Terry Gilliam também reparou nos fios e tubos saindo daqueles prédios vitorianos de Londres e quis de alguma forma mostrar o que ele considera como agressividade e violência estética. É fácil achar exemplos desse tipo nas cidades por aqui.

A segurança.

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Crianças brincando com armas ao lado de um cartaz que oferece férias luxuosas em segurança e em um clima livre de pânico. A realidade não fica muito melhor que isso.

A estrada.

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A paisagem devastada e encoberta por cartazes.

Voltando à questão da distopia. O dicionário define a palavra como um lugar ou estado imaginário. Não vejo nada de tão imaginário assim no filme do Terry Gilliam. Acho que é o caso da wikipedia mudar essa classificação esdrúxula do filme, talvez para comédia. Ou tragédia. Como dizia Charlie Chaplin, a diferença entre tragédia e comédia está na distância do olhar. De perto é tragédia.