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Contos da meia-noite

Cover

‘Round Midnight é o Jazz mais gravado da história (o site allmusic.com lista mais de 1000 gravações diferentes), com versões de Sting e Andy Summers, Amy Winehouse 1 e de brasileiros como Maysa e Baden Powell. E foi a música que ajudou a mudar a vida de Miles Davis e a da baronesa Pannonica de Koenigswarter. Para melhor.

Thelonious Monk e Nica no Five Spot , Nova Iorque 1964
Thelonious Monk e Nica no Five Spot , Nova Iorque 1964

Quando voltaria de sua visita a Nova Iorque em 1948, no caminho para o aeroporto a baronesa Pannonica de Koenigswarter parou para ver o amigo Teddy Wilson. O pianista colocou na vitrola o disco de Thelonious Monk que acabara de ser lançado com ‘Round Midnight e a vida de Pannonica nunca mais foi a mesma.

Pannonica ouviu a mesma faixa 20 vezes seguidas, perdeu o vôo de volta para a França, largou o marido e cinco filhos e decidiu ficar em Nova Iorque. Além do vôo, Pannonica perdeu a fortuna a que teria direito como herdeira da família Rothschild. Pannonica era filha do banqueiro e entomologista Charles Rothschild. De seu pai vieram o nome – Pannonica é uma espécie rara de mariposas – e a paixão pelo Jazz. Deserdada pela família, Pannonica deixou de ser baronesa na Europa para ser Nica e passar o resto da vida entre músicos em Nova Iorque.

Depois de ouvir ‘Round Midnight, Pannonica ficou determinada a conhecer o seu autor, o que aconteceria apenas em 1954. E pelos 28 anos seguintes Pannonica se dedicou a Thelonious Monk, tendo inclusive enfrentado o risco de prisão e de ser deportada para livrar o músico de uma acusação por porte de drogas ($10 em maconha), em um episódio que envolveu uma boa dose de racismo por parte da polícia americana.

Esta história está no livro The Baroness (também lançado no Brasil), da escritora, cineasta e sobrinha de Pannonica, Hannah Rothschild. Em seu livro, Hannah acredita que o afeição de Pannonica por Monk estivesse relacionada ao seu pai. Charles Rothschild cometeu suicídio quando Pannonica tinha dez anos e é bastante provável que, como Thelonious Monk, tenha sofrido de transtorno bipolar.

Discography

E se não fosse ‘Round Midnight, talvez esses discos aí não existissem.

Com dificuldades em conseguir apresentações e afastado dos amigos, em 1954 Miles Davis se trancou na casa dos pais em St Louis, onde ficou por dois meses para se livrar do vício em heroína.

Mesmo depois de sofrer com o tratamento cold turkey, sua reputação continuava em baixa e Miles Davis não fora convidado para a segunda edição do festival de Jazz de Newport, em 1955. Miles então procurou o organizador George Wein para convencê-lo de que estava livre das drogas.

Poucas semanas antes do festival, George Wein assistiu a uma apresentação de Miles no Basin Street East e deu um jeito de encaixá-lo em Newport em uma banda de estrelas, entre elas Thelonious Monk com sua ‘Round Midnight no repertório. E as coisas mudaram para Miles Davis depois de por volta da meia-noite. Do livro Miles: The Autobiography:

As much as I liked the music I was now doing, I think my name in the clubs was still shit, and a lot of critics probably still thought I was a junkie. I wasn’t real popular at this time, but that began to change after I played at the Newport Jazz Festival in 1955. This was the first festival that this couple, Elaine and Louis Lorillard, got together. They picked George Wein to produce it. I think George was from Boston. For the first festival George picked Count Basie, Louis Armstrong, Woody Herman and Dave Brubeck. And then he had an All-Star band that had Zoot Sims, Gerry Mulligan, Monk, Percy Heath, Connie Kay; he later added me. They played a couple of tunes without me and then I joined them on “Now’s the Time,” which was a tribute to Bird’s memory. And then we played “’Round Midnight,” Monk’s tune. I played it with a mute and everybody went crazy. It was something. I got a long standing ovation. When I got off the bandstand, everybody was looking at me like I was a king or something – people were running up to me offering me record deals. All the musicians were treating me like I was a god, and all for a solo that I had had trouble learning a long time ago. It was something else, man, looking out at all those people and then seeing them suddenly standing up and applauding for what I had done.

Miles se mostra presunçoso em sua autobiografia, no livro há exageros e invencionices. Esse é o registro da apresentação e não se ouvem os tais aplausos de que Miles fala:

Terminada a apresentação, Miles Davis foi se quixar a George Wein de que Thelonious Monk teria errado os acordes de ‘Round Midnight. Miles e Monk diviram uma carona para Nova Iorque e no caminho discutiram sobre ‘Round Midnight. Monk se ofendeu e desceu do carro:

We got a ride back to New York with Monk and this was the only time that I got into an argument with him. In the car he said that I hadn’t played “’Round Midnight” right that night. I said that was okay, but that I didn’t like what he had played behind me either, but I hadn’t told him that, so why was he telling me all this shit? So then I told him that the people liked it and that’s why they stood up and applauded like they did. Then I told him that he must be jealous.

Now when I told him this, I was kidding, because I was smiling. But I guess he thought I was laughing at him, making fun of him, putting him on. He told the driver to stop the car, and he got out.

Diferentemente do que Miles diz, não foi a única vez que ele e Monk se desentenderam. Seis meses antes, as gravações de Miles Davis All Stars Volume 1 e de Miles Davis and the Modern Jazz Giants foram marcadas por discussões entre os dois. 2

E também não houve pessoas correndo atrás de Miles lhe oferecendo contratos de gravação. Mas houve sim um cara muito importante que fez isso.

Outro com quem Miles Davis vinha conversando e tentando conseguir um contrato era o produtor da Columbia George Avakian, que estava cético quanto à reabilitação de Miles. Avakian mudou de ideia quando ouviu Miles tocar ‘Round Midnight. Essa é uma página do livro que acompanha a caixa Miles & Coltrane:

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Thelonious Monk escreveu a primeira versão de ‘Round Midnight quando tinha apenas 18 anos e a chamou de ‘I need you so’. Em 1944 Monk apresentou a composição, já com o nome de ‘Round Midnight, a seu amigo próximo Bud Powell, na época pianista da orquestra de Cootie Williams.

Bud Powell insistiu para que Cootie Williams e sua orquestra gravassem a composição de Monk. Cootie Williams aceitou fazer a gravação, mas com a condição de que seu nome fosse registrado como autor, ao lado de Thelonious Monk. Essa prática era chamada de “cut-in” e era comum entre os líderes de orquestra. O compositor cedia parte dos seus direitos e em troca teria seu trabalho gravado por alguém famoso. A música foi registrada com letra de Bernie Hanighen, sem o conhecimento de Thelonious Monk.

Dizem que Cootie Williams não teve participação alguma na música. Na verdade Cootie Williams escreveu uma terceira parte (funciona como um interlúdio, ocorre entre 2:09 min e 2:40 min no vídeo abaixo).

Esta parte é desinteressante e nunca mais foi gravada por ninguém. Diferentemente do que aconteceu com a introdução da música, escrita por Dizzy Gillespie.

Esta é uma gravação de I Can’t Get Started, feita pela orquestra de Dizzy Gillespie em 1945. Preste atenção no final da música (a partir 2:40 min de no vídeo abaixo).

E esta foi a primeira versão de ‘Round Midnight gravada por Dizzy Gillespie, em 1946. Até então Thelonious Monk não conseguira gravar sua música.

Dizzy usou a melodia do final de I Can’t Get Started como introdução de ‘Round Midnight. Isso é relativamente conhecido. O que pouca gente sabe que na verdade essa idéia de Dizzy Gillespie nasceu de um acorde que Thelonious Monk lhe ensinou. 3

Thelonious Monk conseguiu gravar ‘Round Midnight somente em 1947. Foi essa versão que a baronesa Pannonica ouviu naquela visita a Nova Iorque. Cuidado.

Notes:

  1. Amy citava Thelonious Monk como uma de suas influências e fala apaixonadamente dele e de ‘Round Midnight no documentário da BBC Other Voices: Amy Winehouse The Day She Came to Dingle
  2. Miles insistia em que Monk não tocasse durante os seus solos. Nessa gravação de Bag’s Groove, perceba que Monk para de tocar quando Miles começa o seu solo, nesse momento Monk teria ficado em pé atrás de Miles. E na gravação de The Man I Love, ouça Monk dizer “I don’t know when to come in!”. Miles se irrita e diz a Rudy Van Gelder, “Hey Rudy, put this on the record, man – all of it!”. Quem esteve presente diz que faltou pouco para que os dois brigassem.
  3. interessante que Monk e Dizzy chamavam esse acorde de “menor com sexta e com a sexta no baixo” (no caso aí é Ebm6/C). Hoje é chamado de menor com sétima quinta bemol (Cm7b5 no exemplo) ou de meio diminuto. Parece bobagem, mas acordes assim ainda eram estranhos ao Jazz. Foi nessa época que o Jazz começou a ficar moderno. A própria harmonia de ‘Round Midnight é bastante inovadora.