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Thelonious Monk: knoW.

MonkCover

Mês do centenário de Thelonious Monk (10 de outubro) e 100 coisas que você provavelmente não sabia sobre ele.

Dá pra saber muito mais sobre Monk e outros assuntos lendo o monumental livro de Robin Kelley “Thelonious Monk: The Life and Times of an American Original”.

Kelley é professor de História na UCLA, com vários trabalhos publicados sobre relações raciais, história e cultura afro-americanas. A primeira edição do livro sobre Monk foi publicada em 2009, depois de 14 anos de trabalho, durante os quais Kelley teve acesso privilegiado aos arquivos da família e de amigos de Monk, gravações particulares do fotógrafo W. Eugene Smith e da baronesa Pannonica de Koenigswarter e ainda traduziu artigos do polonês, francês, espanhol, holandês, português, japonês e alemão.

O livro foi bastante elogiado pelo NYT , não apenas por seus detalhes, mas também por trazer à luz algumas ideias controversas sobre Thelonious Monk: Primitivo como pianista, excêntrico, irascível, pouco profissional.

Thelonious Monk tinha consciência de tudo isso e ele mesmo dizia, de vez em quando é bom se passar por louco. O que ninguém – nem ele – sabia era que Thelonious Monk sofria de transtorno bipolar. Monk foi internado compulsoriamente duas vezes sem saber por que e apenas aos 55 anos começou a receber tratamento adequado.

Como todo músico negro da época, Monk sofreu com o racismo e ainda encontrou rejeição em seu próprio métier. Com poucas exceções, críticos, músicos, donos de gravadoras e de clubes demoraram a reconhecer sua genialidade. Monk era um outsider em um gênero que começava a passar para a marginalidade.

Mas essas coisas são assunto para o livro. Aqui é lugar para frivolidades sérias. E sendo aqui a internet, trouxe dez. Nem todas do livro de Kelley.

1. O superpoderoso anel do conhecimento

Após o “sucesso” (palavra que deve sempre vir entre aspas quando se fala de Jazz) do LP Brilliant Corners em 1957, Monk, finalmente em melhor situação financeira, presenteou-se no Natal daquele ano com um anel que mandara fazer com as letras de seu sobrenome. Thelonious Monk então virava os dedos da mão para cima, mostrava o anel e dizia “Know. Always know. All ways know”.

2. O chapéu não era chinês

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Conhecido por seus chapéus, o “chinês” era um dois mais famosos. Ainda hoje muita gente não sabe que esse chapéu aí era ganês. Kofi Ghanaba, músico de Gana e mais conhecido como Guy Warren 1, presenteou Thelonious Monk com um chapéu de sua terra natal como forma de se aproximar.

A revista britânica Melody Maker chegou a dizer que o visual desse “chapéu chinês” fazia parte do modernismo de Thelonious Monk. Um chapéu usado por fazendeiros de Gana.

3. Música para dançar

Levantar-se do piano e dançar enquanto o resto da banda tocava era outra marca de Thelonious Monk. Começou em 1957, nos lendários shows no Five Spot. O público descolado do lugar via aquilo como parte da cena de vanguarda da época.

Na verdade John Coltrane disse que Monk começou com isso durante os ensaios e dançar tinha um propósito. Os músicos se sentiam intimidados ao tocar com Monk, dançar era um sinal de aprovação. Para os músicos, era a hora de relaxar e deixar a coisa fluir.

4. Só uma nota

“Samba de uma Nota Só” apareceu pela primeira vez em 1960, gravada por João Gilberto. Em 1953, Thelonious Monk teve uma ideia musical parecida, “Think of One”.

5. “Cometa os erros certos”

Era uma frase de Monk usada para encorajar seus músicos. Achei um exemplo em que ele mesmo comete um deslize.

Misterioso é um blues com 12 compassos. Em seu solo nessa gravação de 1948 pela Blue Note, Thelonious Monk toca um compasso a mais. 2.

A maneira sincopada e imprevisível de colocar as notas faz com que o ‘erro’ não tenha a menor importância.

6. A primeira valsa

Monk dizia ter introduzido a valsa no jazz quando gravou Carolina Moon, em 1952 pela Blue Note.

Na verdade a primeira valsa que apareceu no Jazz foi Jitterbug Waltz, gravada por Fats Waller em 1942. Mas até essa gravação de Monk, ninguém sabia o que fazer com aquele  “tum tcha tcha” que na valsa tradicional fica bom, mas que no Jazz soa horrível. Pra funcionar, tem que ter swing, com uma batida assimétrica. Monk provavelmente se inspirou no Gospel pra fazer sua versão de Carolina Moon. 3

Interessante que Monk compôs apenas uma valsa em sua carreira, “Ugly Beauty” 4 , 15 anos depois.

7. Brilliant Corners foi editada

Lançada em 1957, foi um clássico instantâneo e fez Monk mudar de patamar entre os críticos, mas na época ninguém soube que a gravação fora editada.

Foram quatro horas de gravações, com 25 tomadas, nenhuma completa devido às exigências de Monk 5. Oscar Pettiford, exausto, em certo momento passou a fingir que tocava e trocou farpas com Thelonious Monk. O produtor Orrin Keepnews teve de juntar os pedaços para lançar a música.

8. Personalidade histórica

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Em 1956, para a capa do LP “The Unique Thelonious Monk” , a gravadora Riverside criou a imagem de um selo postal com o perfil de Thelonious Monk. A ideia era fazer uma brincadeira, elevando Thelonious Monk ao status de celebridade histórica.

A fim de promover o álbum, a Riverside imprimiu selos falsos com a mesma imagem. Algumas pessoas chegaram a utilizá-los em suas correspondências, até que a Riverside recebeu uma notificação judicial do correio americano e parou com os selos.

Hoje estes selos falsos são raros e procurados por colecionadores, mas selos verdadeiros com Thelonious Monk existem (e valem menos do que os falsos). Se em 1956 Monk ainda não era uma personalidade histórica, em 1995 o correio americano lançou selos com a imagem de Thelonious Monk. Visionários aqueles caras da Riverside.

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9. Música de criança

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O projeto original para a capa do LP Monk’s Music, de 1957, era colocar Monk em um púlpito, com roupas de monge e segurando um copo de uísque. A ideia do copo de uísque não foi problema, mas Monk se ofendeu com as roupas de monge. Teria dito “Idiotice. Monges nem sobem em púlpitos” e se retirou.

Quando o encontraram, ele estava só em uma sala, carrancudo e em cima de um carrinho de criança. O fotógrafo então lhe perguntou se poderia fotografá-lo assim. Monk concordou e disse que já havia feito composições sentado no carrinho de seu filho.

Repare nos nomes dos músicos na capa, como se escritos por uma criança.

10. Não é Bebop, é Bip Bop

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Rua 52 em NY, 1948 – foto de William P. Gottlieb

Nos anos 40, a rua 52 em Nova Iorque era chamada de “A Rua” pelos músicos e público de Jazz. Monk compôs Bip Bop em 1944 e dizia que daí veio o nome Bebop. Era com essa música que os artistas encerravam seus shows por lá e a música passou a ser chamada de “52nd Street Theme” 6. Ironicamente, Thelonious Monk nunca gravou essa composição.

Notes:

  1. Guy Warren foi pioneiro na mistura de Jazz com música da África Ocidental. Gravou The Talking Drum Looks Ahead em homenagem a Monk, mas nunca realizou o sonho de gravar com seu ídolo, a quem chamava de “sua Graça”.
  2. Ocorre em 2:00 min, no fim do 1o chorus e há um atraso entre Monk e o grupo no 2o compasso do 2o chorus (2:06), na chegada do acorde subdominante. O solo de Monk acaba tendo 25 compassos.
  3. Quando era adolescente, Monk acompanhou uma pastora protestante pelos EUA. Nunca se soube o nome da pastora ou sua denominação, Thelonious Monk apenas disse que foram dois anos de turnê e que o repertório era Gospel, Blues e R&B. No Gospel há muitas canções em 3/4 ou 6/8. “Amazing Grace” por exemplo é em 3/4.
  4. Segundo um livro de partituras aqui, a ‘beleza feia’ da composição (se bem que prefiro chamar de ‘beleza estranha’, uma boa maneiras de definir a música de Thelonious Monk) é o acorde Dm7 11(♭5/5)
  5. Thelonious Monk não escrevia o que queria dos músicos, acreditava que a melhor maneira de aprender seria “de ouvido”, o que costumava criar problemas. As dificuldades foram causadas pelas mudanças no andamento e pela forma incomum da composição. O livro de Kelly fala que Brilliant Corners tem 30 compassos. Na verdade são 22, como Kelley confirmou nesse simpático email.KelleyMail
  6. O nome foi dado pelo crítico Leonard Feather, desafeto de Monk. Feather dizia (absurdamente) que Monk tinha pouco a ver com o surgimento do Bebop. Talvez tenha sido uma maneira de diminuir a importância de Monk.