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O livro dos sonhos de Fellini – parte 2

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“Não estou interessado na vida real. Gosto de observar a vida, mas não posso deixar que isso afete minha imaginação. […]Desenhar me ajuda a ver o mundo.” (do livro “Eu, Fellini”, de Charolette Chandler).

Fellini chamava os sonhos de “trabalho noturno”.

Kafka
Dos diários de Kafka, livro de 1911.

Mas por que desenhar os sonhos? Não achei uma resposta de Fellini para essa pergunta, mas lendo o que ele dizia sobre cinema e pintura dá para especular sobre as motivações.

Certa vez, o jornalista Vincenzo Mollica perguntou a Fellini se havia algum ensaio sobre seu trabalho que o agradasse. Fellini mencionou La Bottega Fellini, de um crítico de arte chamado Raffaele Monti. Sobre ‘A Cidade das Mulheres’, era a primeira vez que alguém falava do seu cinema como cinema pictórico. Fellini dizia ser um homem de imagens, não de palavras.

Fellini disse a Balthus que o invejava. Para Fellini, o cinema era filho da pintura e o pintor tinha a possibilidade mais direta de mostrar a realidade.

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E Picasso era o pintor com o qual Fellini mais se identificava. Ou pelo menos, com o qual gostaria de ser identificado.

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Dois sonhos com Picasso. Este de 22 de Janeiro de 1962.

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“Giulietta e eu fomos convidados à casa de Picasso, e lá estamos muito bem, comemos e bebemos com alegria. Tudo é simples, familiar, antigo, que paz, que reconforto!”

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Julho de 1980

Fellini e Picasso

“Eu sonho com Picasso, um pouco acabado, exausto, mas ainda cheio de vitalidade e que não para de falar. ‘Não seja distraído’ – ele diz, como se lesse meus pensamentos, enquanto me esforço em examinar seu rosto e seu olhar, procurando sinais de sua decadência – ‘Falemos! Ou melhor, escute-me, sou eu quem vai falar.’
E ele continua a falar, com entusiasmo, como um mestre e um amigo.

Quem é este jovem incrivelmente alto e magro e que me sorri com um ar lânguido, irônico, doce e bobo, vestido todo de preto, bastante pálido, e até um pouco amarelo, que (me parece) se olha em um espelho, logo antes de me aparecer? Sua aparição tem algo de espectral, mas sua figura é graciosa, alegre, delicada, feminina, romântica. Parece que se trata de um artista, e este deveria mesmo ser o rosto verdadeiro, o aspecto real de um artista célebre: É ‘este artista’ em sua verdadeira encarnação, tal como ele é. Ou melhor, este é seu espírito. (Sou eu? Eu como sou de verdade? Um adolescente misterioso, delicado, irônico, espectral?)”

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Há vários sonhos com colegas de profissão. Sonho com Antonioni, a cena final de Zabriskie Point.

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Sonho com Rossellini, de fevereiro de 1977. Lembrando que foi Rossellini quem convidou Fellini a entrar para o cinema, em um encontro casual, quando Fellini trabalhava como cartunista.

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“Atravessando a nado o porto de Rimini, me arrisco várias vezes em ser pego pelas redes colocadas no fundo, que vão de um quebra-mar a outro e que apanham os peixes no fundo do canal. Com habilidade, eu consigo mais ou menos evitar ser pego pelas fortes redes, e quando chego ao outro lado do quebra-mar, Rossellini, de maiô, me estende a mão e me ajuda a subir com bastante facilidade. Du Plantier (produtor de Fellini) chega correndo e nos avisa que a água contaminou o mundo todo! Quase a totalidade da população está intoxicada. A doença tem como sintoma manchas vermelhas na ponta da língua. Ele nos mostra sua língua contaminada. Rossellini também tem a língua inflamada.
E eu? Eu sinto um formigamento na ponta da língua, que fica rosa. Sim, eu também fui intoxicado, mas não tão gravemente como os outros, só um pouco.

(Nota: Pouco antes deste episódio, havia acontecido em pleno mar um tiroteio entre a polícia e alguns bandidos. Um tiro havia matado o entomologista de Casanova (personagem do filme que Fellini acabara de fazer). O pobre, eu via flutuar seu cadáver, em um pequeno barco, com uma lâmpada acesa na cabeça.”

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Com Orson Welles, 24 de junho de 1977

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“Orson Welles trabalha em uma dublagem e eu o vislumbro na penumbra da sala de mixagem da gravação. Ele me cumprimenta de longe e, quando termina seu trabalho, tenho a impressão de que ele quer sair sem ter uma conversa comigo. Pouco depois, eu vejo que ele observa alguns papéis com interesse: são meus desenhos. Ele os mostra a outros com admiração sincera. Tento conter seu entusiasmo, que me parece verdadeiramente desproporcional em comparação com estes rabiscos.”

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O transatlântico Rex, que aparece em Amarcord (1973) foi inspirado no desenho animado “O naufrágio de Lusitânia”, de Winsor McCay (o autor dos desenhos do Little Nemo).

Desenho de Fellini para o filme Amarcord. Não faz parte do “Livro dos Sonhos”.

Rex também era o nome de um imponente transatlântico, da época do fascismo e do qual Mussolini se orgulhava.

25 de fevereiro de 1982

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“Esta noite (tal coincidência faz refletir), eu sonhara com um enorme navio negro, obscuro, sombrio, que cruzava o mar. Era um acontecimento para nosso país. A Itália também dispunha enfim de um poderoso e prestigioso navio. Ele devia ter sido colocado na água há pouco e já estava em alto-mar; reinava a bordo um ar de festa, ainda que as coroas, os mantos e as bandeiras usadas na cerimônia parecessem pesadas e sombrias. Tudo era muito escuro. No curto sonho que seguia este sonho do barco escuro e poderoso, Marione entrava no meu quarto e jogava quatro jornais sobre os cobertores, eu os folheava e lia a notícia da minha morte; grandes artigos, fotos e desenhos reproduziam meu rosto e meu perfil. As manchetes diziam ‘o rei do cinema desapareceu’, ‘Fellini definitivamente derrotado’…resumindo, eu estava morto.
O poderoso navio negro recentemente lançado às águas (mas o lançamento foi mantido em segredo), desfilará em mar aberto entre 12 e 13. Ele também pode descer sob os mares, na verdade ele parece que pode desaparecer sob a água, como um submarino.”

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Sonho de setembro de 1977 com Pasolini, que morrera tragicamente dois anos antes.

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“Na casa de Pasolini. Eu o abraço com afeto, sofro uma grande dor no coração pois sei que ele foi condenado à morte. Parece que ele tinha matado um amigo, ‘o diretor’. Estou convencido de que não é verdade, de que se trata de uma sentença injusta e estou surpreso que Pier Paolo esteja calmo e sereno a ponto de perguntar sobre minha saúde, fazendo brincadeiras sobre minha atividade sexual. Eu lhe digo que tudo está bem: ainda lhe digo que ‘estou cheio de vitaminas’, e Pier Paolo com um sorriso doce me pergunta por que não tento colocar algumas dessas vitaminas em seu ‘Agnese’, fazendo alusão a um de seus textos e que sei que ele adoraria vê-lo adaptado para cinema por mim. Saber que ele pode ser executado de um dia para outro me causa uma angústia indescritível. ‘Devemos pedir o perdão a Leone (o presidente)’, digo, com lágrimas nos olhos. ‘Você deve consegui-lo!’ Mas eu sei que a sentença já foi entregue e de qualquer forma, as regras e os labirintos da burocracia o fariam chegar muito tarde. Eu me sento numa cadeira ao lado de Pier Paolo, mas seu cão late para mim e me obriga a sentar no chão. A fera pula imediatamente para a cadeira e Pier Paolo me explica que essa é a “cadeira dele”, e nós ficamos assim, tranquilos, a nos olhar, no silêncio do modesto quartinho.”

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Pra terminar, um  sonho de que gosto muito, com Giulietta, na lua.

Maio de 1966

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“Aterrissamos na lua. Giulietta parece perfeitamente à vontade, como se tivéssemos chegado, o que sei? a Montecatini ou a Capri em férias, e ela já se organiza para nossa nova instalação, pois vamos morar (é o que parece) por algum tempo lá em cima na lua. Tenho medo? Estou perturbado? A viagem me abalou? Não saberia dizer. Percebo uma forte tensão na atmosfera que nos envolve, a vibração molecular dos satélites e esta tensão para um ser humano beira à loucura.
Do interior da tenda (uma tenda de um xeique), observamos lá fora o firmamento estrelado. Entre os infinitos pontos luminosos, há um maior. Será a terra? Uma outra lua? É a verdadeira lua?
Você leu – pergunto de repente – este livro de ficção científica que conta que enviaram à lua todos os loucos da terra? É uma historia muito bonita. Todos os loucos levados à lua viviam aqui, sob as ordens de uma rainha muito bela. O nome da historia era ‘A derrota’. Sério, você não leu?”

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