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O livro dos sonhos de Fellini – parte 1

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“Quando faço um filme, tento permanecer em um estado de encantamento, como se estivesse sonhando” (do livro “Eu, Fellini”, de Charlotte Chandler).


Pra quem abre seu filme mais pessoal com uma sequência dessas, é difícil não superestimar a importância que Fellini dava aos sonhos.

 

Quando criança, Fellini dizia que ir pra cama era como ir ao cinema. Sua cama era batizada com nomes de salas de cinema de Rimini. Fascinado por quadrinhos, seu personagem favorito era Little Nemo , cujas aventuras eram os próprios sonhos e o último quadrinho era sempre o pequeno herói acordando.

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Aos 34 anos, Fellini começou a fazer sessões psicanálise com Emilio Servadio , de linha freudiana. Em 1960, Fellini mudou para Ernst Bernhard, que havia trabalhado com Jung. Aconselhado por seu novo terapeuta, Fellini começou a desenhar e a escrever seus sonhos.

Desta prática resultaram dois livros. O primeiro, de 254 páginas, contêm sonhos entre novembro de 1960 e agosto de 1968. O segundo livro tem 154 páginas, com datas entre fevereiro de 1973 e 1982 (e algumas após 1990). Este intervalo de 4 anos faz especular que haja um terceiro livro escondido por aí.

Fellini não permitia que se vissem os livros. Apenas alguns desses sonhos foram publicados, discretamente, em revistas de quadrinhos.

Algumas editoras japonesas quase conseguiram publicá-los em 1990. Fellini gostou da ideia de ver seus sonhos escritos em japonês, o que os faria ainda mais misteriosos, mas desistiu da ideia.

Depois da morte de Federico Fellini (1993) e de Giulietta Masina (1994), os livros foram guardados pelos seus seis herdeiros – dois da família Fellini e quatro da família Masina – no cofre de um banco em Roma. Para que alguém os retirasse, um contrato exigia a presença dos seis.

A Fondazione Federico Fellini começou então uma batalha para publicar os livros. Maddalena, irmã de Federico doou seus direitos à fundação e Rita, sobrinha de Fellini, os vendeu por um valor pequeno.
Mas os herdeiros da Masina, após muitas negociações, decidiram vender seus direitos por um valor considerado alto pela fundação.

Conseguir o valor foi o mais fácil. Vasco Errani, presidente da região Emilia-Romagna, conseguiu o dinheiro de um fundo para aquisição de obras de arte.

Difícil foi vencer a burocracia italiana. A fundação superou as dificuldades decorridas de falecimentos e mudanças e, finalmente, em maio de 2005, conseguiu reunir os herdeiros (e herdeiros dos herdeiros), conforme exigia o contrato, às portas do cofre do banco.

Até que, segundo contam, no último instante, a escrivã de um cartório percebeu “um vício de forma” em um dos documentos.

Já a ponto de desistir, a Fundação Fellini conseguiu, após um ano e com a ajuda de um advogado, retirar os livros do cofre e publicá-los em 2008.

Publicados em um único volume e chamado de “O Livro dos Sonhos de Fellini”, o livro hoje já virou raridade.

Foi difícil fazer uma pequena seleção aqui. Dizem que 68% dos sonhos são desagradáveis. Não fiz as contas, mas há muitos sonhos com acidentes, catástrofes, perdas, prisões e perseguições. E também, segundo pesquisas, 1% dos sonhos tem conteúdo erótico, se bem que no caso de Fellini, parece ser um pouco mais. Fellini revela um enorme peso na consciência por suas traições à Giulietta, medo de perdê-la e medo de que suas amantes fossem descobertas.

Percebe-se uma tentativa de Fellini em achar algum significado nos sonhos até que, na velhice, Fellini foi aceitando a ideia de não dá pra entender certas coisas. Por isso começo com este sonho de 20 de agosto de 1984, que vejo como uma epítome dos demais.

Meu livro é uma edição francesa e como não sei traduzir e meu francês não é lá essas coisas, coloquei o texto original.

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“Tudo que podemos fazer é tentar alcançar a consciência de que fazemos parte deste mistério insondável que é a criação. Obedecemos às suas leis desconhecidas, ao seu tempo, às suas transformações. Nós somos mistérios entre mistérios.”

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O Papa Paulo VI ainda era Cardeal Montini quando publicou um decreto condenando “La Dolce Vita”. Sonho de 1974 com o Papa Paulo VI.

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“Na cesta de um balão, em companhia de Paulo VI, que tinha seu chapéu papal na cabeça. A situação poderia ser considerada perigosa, já que acima de nossa nave não se via nenhum balão. De qualquer modo, tudo ia bem e eu não tinha medo. Abaixo de nós, a praia e o mar de Riccione, cheios de gente que olhavam para cima e indicavam alguma coisa. Eis que aparece, mais alta e mais larga que o monte Branco, uma maravilhosa criatura em maiô de banho. Era uma mulher, uma deusa, ela parecia…Ela olhava o céu azul sem nos ver, e então, sua bela e doce boca empilha um “oh!” de fascinação e todo o céu se enchia de nuvens brancas.”

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15 de junho de 1963 – Neste aqui, vejo uma certa semelhança com a abertura de La Dolce Vita.

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“Para que tivesse êxito em sua tentativa de entrar em Saint-Pierre, um padre bem conhecido e estimado das autoridades religiosas, ele deveria ser chamado de “monsenhor”. Assim, em seu cartão de visita agora está escrito “monsenhor” e mostrando esse cartão, ele poderá entrar.
Tudo isso provoca comentários desfavoráveis, mas devem-se aceitar os inconvenientes muitas vezes ridículos que nascem de interpretações das leis estabelecidas e anunciadas pela Grande Cruz. E na verdade, eu vejo uma cruz de vários quilômetros de comprimento que, começando da praça Saint Pierre, se inclina em direção ao solo. Jesus crucificado tem seu rosto virado para o chão. Entre as nuvens do céu, percebem-se os tecidos de um longo manto azul (a Madona?).
Parece-me no entanto que esta sombra obscura, que passa no meio de campos que pertencem a diferentes donos, os separa à força, e é um abuso de poder, uma injustiça. Apenas aqueles que suaram suas testas neste largo caminho delimitado pela sombra da cruz têm o direito de caminhar sob ela e chegar a Saint-Pierre. Assim, quer a lei, que é a expressão da vontade divina.”

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8 de outubro de 1974
“Lembro-me apenas que eu parava meu trabalho por um momento para perguntar a Giulietta, empoleirada no alto de uma árvore em companhia de Groucho Marx, se ela havia assinado seu contrato para o filme (no qual ela tinha justamente Groucho como parceiro) e quando ela o começaria.”

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Dezembro de 1974

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“O exame escrito! Sentado na carteira de uma escola, em uma praça de Florença, à noite, vagando na esperança de que as coisas se arrumem sozinhas, já que as dificuldades do primeiro assunto que foi dado são para mim insuperáveis. Brunello Rondi já terminou, se levanta entrega seu trabalho e se vai.
A segunda questão é também muito difícil para mim. A verdade é que, eu não apenas não sei nada de nada, mas mais do que isso, eu não tenho interesse em saber; eu era indiferente a estas coisas mesmo quando criança e ia realmente à escola. O professor sai e eu pergunto à aluna sentada ao meu lado se ela pode me ajudar…a garotinha é muito gentil e lê para mim tudo que escreveu…”

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20 de novembro de 1960 – Uma bela representação de Giulietta Masina.

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Mesma data. “Vamos trabalhar a sério seu Fellini?”, disse o terapeuta.

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“À noite, perigosamente pendurado no topo de uma escada de bombeiros vertiginosa, erguida verticalmente, via Archimede. Agarrada a mim, uma mulher descabelada, semi-nua, talvez um pouco bêbada, pede socorro de modo cômico e faz a escada balançar de assustadoramente. Por que estou lá no alto? Talvez eu quisesse entrar em casa pela janela, (mas na verdade, estas não são as janelas da minha casa, que fica mais para trás).
As janelas estão todas perto, do outro lado da folhagem escura dos pinheiros, e no entanto elas são inalcançáveis. A escada balança de maneira ainda mais vertiginosa, mas será que nós dois estamos realmente com medo? Rimos e fazemos graça.
Lá embaixo, no fim da rua, Giulietta apareceu com outros amigos, e todos, com o ar divertido, nos convidam a descer, é uma fanfarrice infantil mas perigosa. A mulher desce e eu fico lá sozinho.”

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