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As pontes de Sonny Rollins

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O famoso artigo desconhecido sobre o saxofonista que tocava em uma ponte de Nova Iorque.

Em 1959, Sonny Rollins ainda não tinha 30 anos e já era considerado por muita gente o melhor sax-tenor em atividade.  Havia recebido prêmios das principais publicações sobre Jazz, gravado com Fats Navarro, Bud Powell, Miles Davis, Thelonious Monk, Art Blakey, Dizzy Gillespie, Max Roach, Clifford Brown… tinha a agenda cheia.

De repente ele e sua mulher mudam de endereço e ninguém mais ouve falar deles.  Nos clubes de Nova Iorque todo mundo passa a procurá-lo. Programas de rádio o chamavam para ver se ele dava as caras.

Não era o seu primeiro desaparecimento. Em 1955 ele dera entrada em um hospital federal no Kentucky, onde ficou por 4 meses para se livrar da heroína.

As especulações sobre o motivo do sumiço passavam por drogas, cansaço, rivalidade com Ornette Coleman e até por uma versão de que, certa noite, ele ficou tão impressionado ao ver John Coltrane tocar que decidiu sair de cena (ainda hoje há quem acredite nessa bobagem).

O povo gosta de falar. Bastava ter lido estas duas entrevistas que Sonny Rollins deu à revista DownBeat em 1956 e 1958, pra ver que ele já falava em “dar um tempo”.

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Até que na edição de julho de 1961 da revista Metronome, o crítico Ralph Berton escreveu sobre um misterioso músico chamado Buster Jones, que ele teria encontrado tocando sax na ponte do Brooklyn. Nomes e locais verdadeiros foram omitidos, mas quem leu o artigo matou a charada.

Essa história é bastante conhecida e deu origem ao ídolo de Lisa Simpson,  Bleeding Gums Murphy.

 

E caminhar na ponte Williamsburg está na lista de passeios recomendados pelo NYT.

O que ninguém conhece é o artigo de Ralph Berton. Longo, mas vale a leitura. Pensar por que um músico como Sonny Rollins decide desaparecer e praticar seu instrumento no anonimato,  em uma ponte na cidade por quase 3 anos.

Ralph Berton escapa dos clichês e obviedades que esse tipo de assunto geralmente provoca. Berton hoje é conhecido apenas por sua biografia de Bix Beiderbecke, mas chegou a escrever e dirigir um curta-metragem com Buster Keaton (The Triumph of Lester Snapwel), uma ópera e peças de teatro, entre elas uma chamada “The Ad”, que dizem, poderia ter antecipado a série Sex and the City. Berton era literalmente comunista de carteirinha, usou alguns pseudônimos e não conseguiu publicar muita coisa.

Pra dar uma ideia pelo que passava Sonny Rollins, ao ser reconhecido ele pergunta: “Tem importância?”. Pergunta difícil. Orson Welles, William Faulkner e Joshua Bell também trataram dessa questão.

Depois do encontro, Ralph Berton conseguiu uma entrevista no apartamento de Sonny Rollins e dá uma boa descrição do músico. Seu estranho método de praticar o sax, sua preocupação com a saúde (Rollins tinha um mini-ginásio, não bebia álcool e tomava suco orgânico) e seu hábito de escrever textos de autoajuda (outro dia soube que Bruce Lee fazia o mesmo).

Sonny Rollins termina a entrevista dizendo “I think we’re here to do good. We have to make ourselves as perfect as we can, in mind and body, in order to give the world the truth that we have inside ourselves.”. Vamos fazer disso nosso lembrete de autoajuda.

Sonny fala um pouco sobre esse período nessa entrevista. As músicas de fundo são Strode Rode e St. Thomas.

Neste mês, a New Yorker fala dessa história e sobre a ideia de mudar o nome da ponte Williamsburg para  ponte Sonny Rollins. A cidade já tem Adam Yaunch Park, Joey Ramone Place, Miles Davis Way, Bobby Short Place…claro que para Sonny Rollins tem que ser algo condizente com seu tamanho.

colosso

Curiosidade. Em “The Bridge”, o disco que veio depois, Sonny Rollins gravou “God Bless the Child” em homenagem à Billie Holiday, que falecera fazia apenas 3 anos . Esta é a música que Lisa Simpson(Yeardley Smith)  gravou com Bleeding Gums Murphy (Ron Taylor, Kim Richmond) no álbum The Simpsons Sing the Blues.

No link abaixo, a rara edição da Metronome.

Essa edição é de um tempo em que  La Dolce Vita estreava no cinema, havia cursos de embocadura para homens e vibrador era uma palheta para saxofone.

CursoEmb

DolceVita

Vibrator

 

 

 

 

 

 

 

 

Conversations on a Bridge