Skip to content

Amor supremo

R.IP. R.V.G.

Quem comprava CDS de Jazz no fim dos anos 90 deve se lembrar das letras RVG na capa de vários álbuns. Rudy Van Gelder foi um engenheiro de som que transformou suas iniciais em marca de qualidade.

artblakey

morgan

cannoball

budpowell

coltrane

É difícil imaginar algum grande nome que não tenha gravado com ele. Até fora do Jazz ele teve influência. Donald Fagen diz que procurava a mesma sonoridade nas gravações do Steely Dan.

Só tocava nos microfones com luva e tirava tudo que identificasse o equipamento para ninguém saber o que usava. Era conhecido por manter segredo sobre seus métodos de gravação que, aliás, nunca os revelou, como um chef que não conta a receita pra ninguém.

Em seu estúdio não permitia cigarro de nenhum tipo, álcool, alimentos e que ninguém tocasse no equipamento. Há uma história de que ele colocou pra fora seu amigo de escola e baixista Red Michell por este ter mexido nos microfones em uma sessão de gravação com Jim Hall.
Ainda assim era adorado pelos músicos (com exceção de Charles Mingus, mas essa é outra história).  Até por alguém como Thelonious Monk, que lhe dedicou essa composição:

Rudy Van Gelder se formou em optometria aos 22 anos e se mudou com os pais para uma casa em Hackensack, New Jersey. Ele já havia feito algumas gravações com amigos músicos e decidiu levar adiante sua verdadeira paixão. Não havia cursos para aprender o ofício e muito menos a profissão de engenheiro de gravação. Aprendeu tudo na raça.

Durante o dia Rudy trabalhava como optometrista e à noite fazia as gravações em uma sala na casa dos pais, descrita mais ou menos como um pé direito de 3 metros, piso de cimento e uma grande passagem em forma de arcada para a sala de jantar. Os músicos adoravam a acústica que esse ambiente oferecia.

O negócio decolou em 1953 quando ele gravou seu amigo e saxofonista Gil Melle:

Gil Melle vendeu os direitos sobre a gravação para Alfred Lion da Blue Note. Lion decidiu fazer outro disco com Gil Melle e pediu ao seu engenheiro de som que conseguisse a mesma sonoridade. O engenheiro disse que não sabia como conseguir aquele som e que seria melhor chamar o responsável. Depois disso Rudy Van Gelder e Alfred Lion começaram uma parceria que durou 14 anos e produziu grande parte do cânone do Jazz.

Os músicos gostavam de sua paciência em arrumar a sala de gravação de acordo com a situação. Isso fazia a diferença no caso de uma música que depende muito de improvisação e que não funcionaria em uma configuração mais rígida de um grande estúdio. Por exemplo, os músicos tinham a liberdade pra tocar com maior intensidade quando desejassem , sem que Rudy dissesse que estava muito alto e pedisse para se afastarem dos microfones.

Natural, cristalino, transparente, fiel, aconchegante, quente, robusto, profundo, espacial, são alguns dos adjetivos para definir essa tal sonoridade. Esse artigo do NYT é bem didático:

http://www.nytimes.com/2016/08/27/arts/music/rudy-van-gelder-essential-recordings.html?_r=0

Também recomendo esse artigo da New Yorker:

http://www.newyorker.com/culture/richard-brody/postscript-rudy-van-gelder-1924-2016-modern-jazzs-listener-of-genius

Como o objetivo do blog é falar do que você não vai encontrar na rede, decidi falar sobre da gravação de A Love Supreme em que a participação de Rudy Van Gelder foi decisiva.

John Coltrane foi apresentado a Van Gelder por Miles Davis em 1955 na gravação do álbum  The New Miles Davis Quintet, lançado pela Prestige. Coltrane continuou frequentando o estúdio de Van Gelder pelos próximos 3 anos até assinar com a gravadora Atlantic.

John Coltrane no estúdio em Hackensack
John Coltrane no estúdio em Hackensack

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Com a agenda cheia e com gravações acontecendo à noite, ficou inviável trabalhar na casa dos pais e Rudy Van Gelder construiu um novo estúdio em Englewood Cliffs.

Voltaram a trabalhar juntos em 1961, na gravação de Africa Brass Sessions, quando John Coltrane foi para a Impulse. Coltrane fez questão de gravar Africa Brass com Van Gelder, um pedido estranho pois se tratava de uma orquestra com 19 músicos, muita gente para um estúdio daquele porte, mas gravar com Rudy Van Gelder era uma exigência de John Contrane.

Os dois compartilhavam as mesmas qualidades. Obstinação, preciosismo, competência e a mesma paixão por música. Havia respeito e admiração mútuos.

Van Gelder conta que nas gravações Coltrane fazia várias sessões diárias de 3 horas até  decidirem quando o disco estava pronto.  Algo que fazia o orçamento do produtor Bob Thiele estourar, mas John Coltrane era tão respeitado na Impulse que tinha total liberdade pra entrar e sair quando quisesse e fazer tantas sessões de gravação quanto fossem necessárias.

IMG_0617

A forma de agir em estúdio era algo que John Coltrane trazia da época Miles Davis. Poucas palavras, equilíbrio entre o mínimo de instruções e o máximo de espontaneidade. McCoy Tyner:

Garrison
Jimmy Garrison e John Coltrane

“John said very little about what he wanted. If he had certain specifics that he wanted to add to the music or how he wanted it played, he would say it. I think this is so important, because it was an on-the-spot improvisation, honestly approached music, with nothing pretentious about it at all. In the case of A Love Supreme, it was actually songs, but the structure itself was very limited. A simple melody line, and not too stretched out. I remember he worked out a bass line with Jimmy, and told Elvin, “This is what I’d like,” and basically, that’s the way it went.”

“He’d write down the symbols to a set of very basic chords—B-flat, B-natural, E, just regular chords—and you could hear the relationship of the chords, how they were fitting with each other. But it wasn’t like he said, “I want you to play this, I want you to play that.” we’d been playing together for so long at that point that the band had a sound, so it wasn’t like we were stuck in a situation where we were tied down to these chords. In other words, you could do what you wanted, keeping the form in mind. That’s what A Love Supreme was about.”

Van Gelder era conhecido por criar o “clima” mais adequado para a personalidade do músico. Tyner lembra que no caso de A Love Supreme, a ideia era a intimidade de um nightclub, com pouca luz , os músicos sentados próximos e em semi-círculo.

O novo estúdio lembrava uma capela, algo que, de acordo com Van Gelder, foi fundamental para um disco com tanta espiritualidade. Van Gelder:

RVGStudio“During the time [Coltrane] was [signed to Atlantic], I was building the new studio in Englewood Cliffs, roughly late 1958, ’59, and ’60—very different from Hackensack: high ceiling, wooden beams angled upward and arches reaching toward the peak, with masonry walls. It created a feeling that seemed to fit the spiritual direction that his music was taking. He seemed the same person to me, but his music was dramatically different.”

 

 

 

As gravações fluíram de tal modo que foram necessárias apenas 4 horas na noite de 9 de dezembro de 1964 para que John Coltrane ficasse satisfeito.

Rudy Van Gelder usou apenas duas pistas, eliminando a possibilidade de mixagem. Dizem que A Love Supreme é um disco “ao vivo” gravado em estúdio. RVG:

“All of them were two-track recordings, which eliminated any possibility of mixing later. The advantages of doing one or two tunes at a time in a direct-to-two-track mode allowed me to concentrate more on the balance, mix and overall sound. Yes, we could edit between takes, but we couldn’t change the balance.”

John Coltrane fez questão de agradecer a Van Gelder. A foto é do meu encarte do vinil:

Encarte

Ainda haveria muito pra falar sobre A Love Supreme. A integração perfeita entre os músicos, a paciência e dedicação de Rudy Van Gelder. Parece que o universo conspirava a favor. Difícil imaginar algo assim nos dias de hoje.

A Love Supreme não é um disco fácil. Pra gostar é necessário ouvi-lo várias vezes, com atenção, com calma. Muito difícil nos dias de hoje.