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O Ministério da Cultura e a crise na Cinemateca (de Paris)

Esta é uma cena de Bande à Part, o filme de 1964 de Jean-Luc  Godard.  Godard, como narrador não identificado, diz “Odile pergunta ‘o que é aquele edifício?’. O Louvre. Odile exclama ‘que boa ideia pintá-lo de branco! O cara que fez isso deveria ser condecorado!’”.

O “cara” é Andre Malraux, o primeiro a ocupar o cargo de Ministro da Cultura, criado em 1958 por Charles de Gaulle.

Interessante que Odile não sabe o que é aquele edifício, mas sabe que branco ele não era.  Andre Malraux havia iniciado um projeto bem sucedido de restauração de prédios com valor histórico na França.

Mais interessante ainda é o elogio de Godard ao ministro de Charles de Gaulle. Godard e Malraux tinham uma boa relação apesar de problemas com a censura no governo de Gaulle em duas ocasiões.  As cenas em que apareciam Eisenhower e Charles de Gaulle em À Bout de Souffle (1960) tiveram de ser cortadas e Le Petit Soldat (1960) só conseguiu ser exibido três anos depois de terminado.

Corta pra 1968.
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Esta é uma cena do início de Baisers Volés, de François Truffaut.  O portão trancado era a entrada da respeitadíssima Cinémathèque Française, que até então fora dirigida pelo respeitado (e polêmico) Henri Langlois.

Langlois era considerado por Malraux arrogante e desorganizado e havia ainda a controvérsia sobre a sua responsabilidade no incêndio que destruiu parte dos arquivos da cinemateca. Langlois era visto como o oposto do seu equivalente britânico Ernest Lindgren.  Langlois romântico e Lindgren racional.

Em 9 de fevereiro de 1968, sem nenhum aviso prévio a Langlois, aparece na porta da cinemateca Pierre Barbin, o novo diretor nomeado por Malraux. Langlois estava em seu escritório com Marie Epstein, recebe a notícia e sai literalmente pela porta dos fundos.

No mesmo dia o novo diretor dispensa 54 funcionários e mantém apenas Marie Epstein devido ao seu conhecimento do acervo.  E pra fechar com chave de ouro manda trancar com  cadeado a porta da cinemateca.

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A situação da comunidade do cinema com Malraux já estava azeda fazia dois anos por conta da proibição ao filme La Religieuse de Jacques Rivette.  Embora não tenha sido diretamente responsável pela censura, Malraux foi o alvo de Godard. Em uma famosa carta aberta publicada pelo Le Nouveau Observateur, Godard diz “Já que você é o único Gaulista que conheço, minha ira terá de cair sobre você”. Godard comparou De Gaulle a Vichy, chamou Malraux de “colaborador” e disse que se recusaria a apertar suas mãos.

Após o episódio da cinemateca, Truffaut inicia um movimento entre os cineastas para que proíbam a exibição de seus filmes:

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Em 3 dias, entre 80 diretores consultados, apenas 2 se recusaram a proibir.

Em uma reunião em  21 de março com diretores e atores, Truffaut  define a remoção de Langlois como golpe. Na foto estão  Jean Rouch, Jean Renoir, Jean-Luc Godard, Jacques Rivette e Claude Chabrol:

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E a lista dos diretores fora da França que apoiam Truffaut é impressionante: Antonioni, Bellochio, Rossellini, Taviani, Pasolini, Lindsay Anderson, Busby Berkley,  Cassavetes, Buñuel, Dreyer, Nicholas Ray, Fritz Lang, Minnelli, Josef von Sternberg, Koulechov, Joseph Losey, Samuel Fuller, John Ford, Satyajit Ray, Orson Welles, Polanski, Kubrick, Hitchcock, Howard Hawks, Kurosawa…

Do Combat ao Le Monde, em uma rara unanimidade, jornais à esquerda e à direita condenam os atos de Malraux. Os protestos foram enormes.

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Abril de 1968 vem antes de maio de 1968 e não é preciso muito para imaginar o clima em Paris. Em 22 de abril Henri Langlois voltou à Cinemateca.

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